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ENTREVISTA: VANESSA SILVA

"É disto que eu gostava que as pessoas se lembrassem: feliz, frontal e honesta."

Não tem memórias de si sem Música. É do Teatro. Actriz e cantora. Artista e bairrista. Contadora de histórias. Intérprete em nome próprio e em personagem. Muitas personagens. De Portugal, dos mares, do mundo. Conhecida do pequeno ecrã e dos palcos. Um dos primeiros que pisou foi este, o então chamado Pavilhão Atlântico, em 2004, ao lado de Anastacia. 17 anos depois, também na maior sala de espectáculos do país, foi jurada do All Together Now. Vamos conversar com vista para a arena de ontem, de hoje e, quem sabe, de amanhã. Está aqui, com Engenho & Arte, Vanessa Silva.

por Bernardo Peixoto

fotografias de Luís Ribeiro da Silva


entrevista

Que recordações é que esta sala te traz à memória?

Curiosamente, muitas. Obviamente que a primeira coisa para que me remete é o Anastacia Idol. Tive a sorte de cantar com a Anastacia! Porque ela fez um concurso, aquando de uma tour europeia, e eu fui uma das seleccionadas. Eu e a Ana Rita Inácio. Depois, a final foi cantar com ela aqui. E quem ganhasse iria a concurso com o resto das pessoas da Europa. Eu ganhei cá e ganhei o concurso da Europa. Depois, fui gravar com ela um videoclipe [da música “Heavy On My Heart”], uma coisa maravilhosa. É a primeira recordação que me vem sempre à cabeça. Mas eu, curiosamente, já fiz aqui muita coisa. Quando isto foi feito, logo ao início, fiz algumas coisas para empresas e os espectáculos eram aqui… e era um privilégio. Fiz muita coisa com o Henrique Feist também. É uma sala maravilhosa.


Quando cantaste com Anastacia, em 2004, tinhas 23 anos. Que recordações é que tens da Vanessa dessa altura?

Era outra Vanessa, era outra Vanessa. Era uma Vanessa mais velha, mais carregada. Ia dizer “menos responsável”... mas não é o termo correcto. Eu acho que mais carregada é o termo correcto. Na altura, a nível pessoal, era uma coisa mais difícil… havia menos liberdade para se fazer as coisas e eu era mais recatada. Se calhar, se fosse agora, tinha feito as coisas diferentes. Inclusive esse concurso e o que adveio dele mas… era uma Vanessa feliz. Eu fui sempre uma Vanessa feliz.


E o que é que na altura sonhavas para 17 anos depois, para os dias de hoje?

Em parte, exactamente o que eu tenho, que é continuar a trabalhar. Eu mantenho sempre os pés no chão. Sei o país em que nasci e aquilo que nos é permitido a nível cultural e artístico, que não é aquilo que uma pessoa dos musicais, como eu, gostaria. Acho que é uma arte que cá ainda é um bocado subvalorizada e acho que as pessoas não vêem o grau de dificuldade que existe para nós, que temos de estudar três áreas tão diferentes e que temos de conseguir fazê-las ao mesmo tempo. Sonhava que houvesse uma maior abertura hoje em dia. Ainda não há.


“Eu queria ser bailarina e médica veterinária.”


E sonhavas actuar nesta sala com uma carreira a solo?

Sim, claro. Ainda vai acontecer!


E este regresso, já com uma notoriedade diferente, enquanto jurada permanente do All Together Now?

Tem sido muito divertido. É um regresso que, olhando para trás, é gratificante. Saber que já cheguei a um patamar, embora não seja aquele que eu quero, mas que já consegui atingir algumas das coisas e concretizar alguns dos sonhos. E tem sido super divertido.


Esses sonhos de que falas... O sonho de artista era já de infância?

[hesita] Eu queria ser bailarina, quando era pequenina. Mas a minha mãe foi amorosa comigo. Disse-me: “Canta. Só.”. Eu, afinal, não era bem talhada… Acho que, dependendo das áreas, há esforços que tens de fazer e eu se calhar não estava preparada para fazer os que eram necessários para seguir uma carreira como deve ser enquanto bailarina. Mas eu acho que também me faltava um bocadinho de talento.


Portanto, primeiro querias ser bailarina...

Eu queria ser bailarina e médica veterinária. E a escola estava a correr bem. Mas eu, chegando àquela idade, aos 16 ou 17, tinha de fazer uma escolha... e o Teatro pesou mais. No fundo, eu sempre quis ser actriz. É essa a minha essência. E cantava… eu comecei a cantar com seis anos, foi o primeiro espectáculo que fiz. E as pessoas foram pedindo e eu fui fazendo. E depois começou a ser o trabalho… começou a ser uma coisa profissional e paga…  Acho que é por isso que eu canto.


Mas quando é que passa a ser uma decisão consciente, em que pensas: “eu quero ser artista”?

Por volta dos 13 anos, já tinha uma banda e foi quando comecei a fazer televisão. Percebi que era aquilo que eu queria fazer. Tive uma dúvida, até aos 16, 17 anos, que foi quando fui para a escola de Teatro. Porque eu era boa aluna e queria mesmo ser veterinária. Eu amo animais e amo tratar deles. É uma causa que eu defendo com unhas e dentes. Os meus filhos são os meus gatos. E, sim, eu sei que as pessoas dizem que não pode ser, mas pode. Cada um tem aqueles que escolhe. Estes são os que eu escolhi. E o amor que lhes tenho é, sei lá, é mais do que tenho a mim… E quando cheguei a essa idade, e tive de fazer uma escolha, entre efectivamente ir para Medicina Veterinária ou para o curso de Teatro… o Teatro falou mais alto. Eu já cantava na altura... Já era o que eu fazia, parcialmente, ao mesmo tempo que a escola. Eu sou sempre mais, sou sempre mais feliz a cantar.


Percebe-se que a dança surgiu muito naturalmente na infância. O Teatro, pelos vistos, também… Mas a Música entra quando e como?

Não, a Música é que entrou antes do Teatro. Entrou antes de tudo no fundo, porque eu comecei a estudar ballet em pequenina e dança jazz e essas coisas. E depois faltava alguém para cantar quando eu tinha seis anos, numa festa da qual eu fazia parte a dançar… Eu fui sempre muito desenrascada, dou o corpo às balas, não tenho medo, e eu disse: “Ah! Não há ninguém? Então eu vou!”. E fui. E cantei, a Lambada dos Kaoma. E desde esse dia para a frente foi sempre [a cantar]. Eu nunca pensei “vou ser cantora”, não. Foi automático. Esteve sempre lá. E depois com o passar dos anos, por volta dos 13, 14 [anos], já tinha uma banda. O meu pai também foi sempre muito ligado à noite, sempre me levou para os bares…


Ao Fado? Onde é que entra o Fado?

O Fado... Pois… É que, no fundo, se eu pensar nisso, a Música esteve sempre lá, desde que eu nasci, desde que eu me lembro. E se calhar por isso é que me é uma coisa tão natural. Os meus pais tiveram uma casa de fados, quando eu era pequenina, e portanto eu já cresci no Fado. O meu tio ainda é fadista - e é dos melhores que eu conheço… E portanto… a Música esteve sempre comigo e esteve sempre na família. Levei 40 anos para perceber isso. Percebi agora. Tive este momento de realização de que se calhar por isso é que eu nunca contabilizei [os anos na Música] porque… esteve sempre lá!


entrevista

Lembras-te da Vanessa sem ser artista?

Não…


Não tens memórias de ti sem ser a fazer qualquer coisa relacionada com a Dança, com a Música, com o Teatro...

Não, não tenho. Desde que me lembro. Eu comecei a dançar pequenina, com dois anos, dois anos e meio, como todas as meninas que são pequeninas e que querem ir para o ballet. Depois, cresci um bocadinho e quis ir para a dança jazz. E para as danças de salão. E depois esse dia em que foi preciso uma pessoa para cantar e eu cantei. E aquelas duas coisas foram sempre ficando. Ou seja, até aos 16 [anos] e tomar a decisão de “eu vou tirar um curso de Teatro. Eu vou ter formação porque é isto que eu quero fazer.”... no fundo tudo o resto já lá estava. Esteve sempre desde que eu me lembro. Não tenho uma recordação minha que não seja musical.


“O nosso meio é naturalmente mais competitivo e menos honesto.”


A partir daí, fizeste uma série de coisas e chega uma altura em que, como já afirmaste publicamente, te “cansaste de cantar”. Que cansaço era esse?

[hesitação e suspiro] Isto é um meio… eu costumo dizer que todos os meios são difíceis, obviamente. As vicissitudes da vida acontecem em qualquer profissão. E os colegas difíceis também [risos]. Mas eu acho que o nosso meio é naturalmente mais competitivo e menos honesto. E eu tenho muitos problemas a lidar com isso. Porque eu não sou competitiva - a não ser comigo própria - e peco pela honestidade. Costumo dizer, desde pequena, que tenho a boca grande. Calar-me às coisas, às vezes, é muito difícil. E, hoje em dia, é uma coisa que eu também já não quero fazer. Porque levar desaforo para casa, já com 40 [anos, quase 40 anos], já não vai resultar. E cheguei a uma altura, eu creio que foi depois da Academia [de Estrelas]  que eu decidi que eu, enquanto Vanessa, Vanessa na minha casa, enquanto ser humano, não queria mais lidar com esse tipo de coisas. E queria afastar-me. O que estava a acontecer era que o amor que eu tenho a esta arte, que é maior que a vida, estava a morrer. E eu, para ser infeliz a fazer o que eu amo, prefiro não fazer. Prefiro guardar o amor que tenho. E pensei: “canto nos meus karaokes, com os meus amigos ou na minha casa... e está bom.”.


E o que é que foste fazer?

Fui tirar um curso de maquilhagem.


E chegaste a trabalhar como maquilhadora?

Cheguei a fazer reforços e coisas, mas depois… [hesita]


O que é que te fez voltar?

Nada e tudo. Isto falou mais alto sempre. Eu continuava a ter propostas de trabalho, às quais dizia que não. Até que apareceu uma proposta muito, muito gira, no Casino Estoril, e eu não consegui dizer que não. E pensei “bom, vamos lá dar mais uma oportunidade a isto”.  As pessoas com quem eu ia trabalhar eram minhas, como eu costumo dizer. E eu achei que pelo menos esse “departamento” estaria tratado, que eu não me ia chatear, não ia para casa triste. E assim foi e lá fiquei ainda uns três anos.


Os anos passaram, foste trabalhando com essas pessoas que afirmas serem “tuas”… A partida, mais tarde, para trabalhar nos cruzeiros, pode ser de alguma forma equiparada à saída para a maquilhagem?

[hesita] Pode. Acho que foi um bocadinho pelas mesmas razões. Porque há sempre esse ciclo… não te vou dizer que está a acontecer um bocadinho agora, porque eu acho que agora está a acontecer com toda a gente. Nós estamos todos cansados da forma como as coisas estão e como o mundo está a funcionar... e acho que quando começamos a ficar um bocadinho mais para baixo, mais cabisbaixos, temos essa tendência de fazer alguma coisa, de mudar. Há uns cinco, seis anos, quando me fui embora foram também essas as razões. Mas não eram razões tristes. Foi um “eu não quero lidar mais com isto… aqui”. Eu quero tentar a minha sorte noutro sítio porque eu acho que consigo. E também foi um provar a mim mesma que eu efectivamente conseguia.


Porque é que regressas dos cruzeiros?

Porque eu vou estar eternamente ligada ao Filipe La Féria. E vou-lhe estar eternamente grata. Porque o Filipe deu-me as maiores oportunidades que eu tive enquanto actriz e deposita sempre muita confiança em mim e no meu trabalho. E eu não vou ter nunca como lhe pagar isso. O Filipe sempre disse que o sonho da vida dele era fazer uma peça sobre a vida de Laura Alves, que é para ele a maior estrela do panorama nacional desde sempre. E nós tínhamos um “acordo” que era: no dia em que o Filipe fizesse a Laura, eu voltava dos barcos. Se assim não fosse, então eu iria deixar-me estar, porque eu sou muito feliz lá. E, há um ano e meio, o Filipe disse “então vamos fazer a Laura. Se eu fizer a Laura, a Vanessa fica”… e fiquei.


Quantos anos passaste nos cruzeiros?

Cinco.


O que é que distingue a Vanessa de antes dos cruzeiros da Vanessa que regressa? O que é que mudou entretanto?

[hesita] Muita, muita coisa, muita coisa. Mesmo a nível pessoal. A Vanessa é a mesma. Mais sábia, se calhar. Aprende-se muita coisa, a todos os níveis. Com uma maior aceitação de mim mesma, porque eu sou muito perfeccionista e tenho tendência a chicotear-me quando as coisas não correm profissionalmente como eu quero. E permito-me falhar um bocadinho mais do que eu me permitia antes. Mas acho que isso tem a ver também com a idade.


Achas que vais voltar a sentir aquele cansaço que te fez parar?

Eu espero que não, mas, se assim for, eu vou fazer aquilo que acho que é a decisão certa, que é parar. O tempo que eu tiver de parar para não deixar de amar isto. Porque é-me tão importante quase como respirar.  Poder cantar, contar histórias. Paro um bocadinho, deixo-me respirar e, se o amor for o mesmo, então volto. E no dia que não for, farei outra coisa qualquer. Baixar os braços é que não.


Como é que tu, que praticamente nunca paraste durante toda a vida...

Nunca parei!


Como é que tens vivido este confinamento da Cultura?

[suspiro] É um bocadinho o que eu estava a dizer. Acho que eu e, pelo menos, os meus, os meus à minha volta, estamos tristes com isto. Porque não é só o estarmos parados pelo factor pandemia. É a realização de que, e não me interpretem mal, neste país o Teatro Musical não é reconhecido, nem vai ser nos próximos anos. E é visto como uma coisa quase até medíocre: “Vamos brincar às canções e aos bailados”. E essa realização deixa-me tão triste. Deixa-me ainda mais triste do que ter de estar em casa, porque tenho de estar em casa, porque nós temos todos de estar em casa agora. Não há outra hipótese. Já há a tristeza geral da desgraça que estamos a passar. Mas eu, como tento sempre ser positiva... desta vez se calhar não consigo tanto por causa disso, porque acho que cá a Cultura em geral é muito menosprezada. Ainda por cima tendo estado cinco anos a trabalhar para outro país, onde aquilo que eu fazia era tão importante, e sentir que cá é indiferente... Não temos apoios, não temos nada, nada, zero. E o pouco que há, enfim… Têm sido tempos duros nesse aspecto. Na realização de que isto, a arte que eu escolhi, se calhar não é considerada uma coisa importante. Enquanto eu acho que é tão importante aquilo que nós fazemos: quem canta, quem lê, quem escreve, quem cria, quem pinta, quem trata do nosso som, quem trata da nossa maquilhagem, tudo, tudo. Tudo o que envolve a arte é importante e eu acho que cá… o Governo, ou quem manda, ou até mesmo quem compra, ao fim ao cabo, ainda não percebeu como isto é importante.


Como é que olhas para a utilidade da actividade artística e cultural para a sociedade em geral?

[suspiro] É um bocadinho aquilo que nós temos dito: fecha-te em casa, porque és obrigado a estar em casa, desliga a televisão, não leias um livro, não ligues a rádio, nada. Consegues viver? Eu não consigo. É isto que eu sinto. Que ninguém consegue viver sem arte, qualquer tipo de arte. Ninguém consegue viver sem isto…


“Acho que as pessoas não me vêem como actriz e isso faz-me um bocado de confusão.”


Qual é que sentes ser o teu papel nisso?

[hesita] Até há pouco tempo, achava que o meu papel era só contar histórias [risos]. Estou aqui para contar histórias às pessoas. Umas a cantar, outras não. E agora acho que é um bocadinho mais importante. É nosso dever fazer ver isso às pessoas também. Não por nós, mas se calhar para as gerações que vêm a seguir, de forma a que as pessoas percebam como isto é importante. Nós vamos ter de bater o pé. Por tudo. Por direitos. Quanto mais não seja para manter isto vivo.


És conhecida do grande público. Mas sentes-te reconhecida no mercado?

[hesita] Não… Não, mas também não me posso queixar. Não posso dizer um “não” taxativo, porque eu, em 26 anos que faço isto, nunca fiquei desempregada. Portanto eu não me posso queixar. Mas não acho, por exemplo, que as pessoas me vejam como a profissão que eu efectivamente tenho, que é ser actriz. Acho que as pessoas não me vêem como actriz e isso faz-me um bocado de confusão, às vezes.


Como é que as pessoas te vêem?

A Vanessa cantora! As que vêem. Pronto, as que não vêem… não se pode chegar a toda a gente - e aí íamos ter pano para mangas e esta conversa nunca mais acabava. E eu possivelmente ia dizer muita coisa que depois me iria tirar ainda mais trabalho… e é melhor não. Isso depende da maneira como as coisas funcionam em todo o lado do mundo. Mas cá, neste caso, se calhar funcionam de uma maneira que não é aquela que eu funciono e, portanto, também daí não advêm tantas oportunidades quantas eu gostaria. Mas… eu sou feliz com as que tenho e, se vier esse reconhecimento um dia mais tarde, melhor. Se não vier, também não te posso dizer que vou morrer triste. Eu continuo a trabalhar e, desde que me deixem contar as minhas histórias, estou feliz.


O que é que está por cumprir?

Eu nunca fui uma miúda que quis... Não tenho aquela coisa do “eu quero muito ter o meu CD, o meu disco, os meus trabalhos de originais, para poder fazer concertos”. Eu sou feliz a cantar as músicas dos outros. Porque eu acho sempre que conto as histórias à minha maneira. E acho que isso também é importante. Eu sei que a maior parte dos artistas que fazem disto vida têm sempre esse desejo do “eu quero mesmo é contar as minhas histórias”… Eu gosto de transformar as histórias dos outros… nas minhas. E se calhar por isso mesmo: porque sou actriz e gosto desse desafio. Se calhar, há uns anos valentes eu dizia “eu quero muito o meu CD, quero muito os meus originais”... depois comecei a escrever para outras pessoas e fiquei feliz com o facto de as outras pessoas contarem as minhas histórias, da mesma forma que eu conto as dos outros. Portanto, por enquanto, eu gosto de compor para os outros e gosto de cantar as músicas dos outros. Se calhar, um dia, um dia cumpro isso. Porque é um bocado uma coisa que as pessoas te exigem, se fores cantor: tens de ter o teu trabalho, tens de deixar a tua marca. No meu ponto de vista, eu já deixo a minha marca, à minha maneira. Mas, pode ser que sim, pode ser que um dia destes eu grave um CD, tenha os meus originais (mais originais) e possa então fazer uma tournée e levar a minha música a outras pessoas. Se calhar é isso que falta cumprir.


Qual é que foi o teu maior desafio?

[hesita] A Judy. A peça “O Fim Do Arco-Íris”, que fiz com o Filipe [La Féria]. Por milhares de razões: porque eu sou fã número um da Judy Garland, sempre fui; porque nunca achei que seria capaz de representá-la, por lhe ter tanto respeito e tanto amor… e por ser uma vida tão difícil, uma pessoa mais velha, uma pessoa com tanto reconhecimento; pela responsabilidade que o Filipe me passou; porque não queria desiludi-lo, nem a mim, nem aos meus; porque foi uma fase complicada - eu perdi o meu irmão mais novo nessa altura. A nível pessoal foi muito difícil de controlar isso todos os dias, porque eu todos os dias morria na peça. Portanto havia ali um entrave. Acho que foi a parte mais difícil. Eram muitas músicas, eu tinha de cantar muitas músicas, havia muitas mudanças de humor durante a peça: eu gritava, chorava, arrancava cabelos, ficava bêbada, depois afinal já não. Foi a mais difícil, mas também a mais feliz.


entrevista

Disseste que o teu irmão morreu durante…

Na estreia da peça. O Vasco teve um acidente no dia da estreia e faleceu - acho que três dias depois. Os meus pais tentaram esconder-me durante um dia mas… o meu irmão não estava na estreia e isso era impossível. Alguma coisa tinha de ter acontecido, porque eu não o vi lá. O Vasco nunca faltava a nada meu, portanto era impossível.


Como é que foi para ti possível aguentares-te em cena, a viver a morte de um irmão?

Nem eu sei! Nem eu sei… Não sei até hoje como é que fui capaz, não sei. Sou muito espiritual… Eu fui criada com a minha avó, que também perdi muito nova, no dia dos meus anos, e há uma ligação sempre muito presente com ela. E eu já sentia que ela estava sempre comigo e quando eu estava a fazer as coisas. Porque a minha avó sempre foi muito dada ao Fado e às cantorias e essas coisas... e também foi um bocadinho por causa dela que isto começou. E depois passei a sentir isso com o Vasco. O Vasco está sempre comigo, no que eu fizer. É o meu grilinho falante. E eu acho que me apoiei nisso e no eu achar que as minhas pessoas, quando partem, ficam sempre comigo. E até hoje acho que é isso que me mantém muitas vezes, quando entro em palco, e quando estou nervosa - porque fico sempre muito nervosa [risos]. Acho que eles estão comigo... e fui-me aguentando. Houve dias difíceis, houve dias em que achei que não era possível. E depois, fazer uma pessoa [Judy Garland] que passou tantas dessas coisas na vida, começas a ter medo, pelo menos era o que eu sentia, de cair na desgraça dela. E depois aquilo é uma bola de neve...


E caíste?

Não, não. Nem de perto.


Também pela mão de Filipe La Féria, interpretaste Amália, em “Uma Noite em Casa de Amália”. Se organizasses, na tua casa, uma tertúlia desse género, quem é que receberia um convite?

Você receberia logo um convite, como é óbvio! [risos] Tínhamos de ter um mediador, não é? Havia sempre… Quem é que receberia? Eu faço muitas dessas tertúlias. A coisa que eu mais gosto é de receber gente na minha casa. E poder cozinhar e servir. E ficarmos a conversar e a cantar... É a coisa que eu mais gosto! Prefiro isso mil vezes do que festas e saídas e coisas. Eu sou muito caseirinha e disso é que eu gosto: de ter os meus comigo. Deixa-me pensar assim nalguns nomes… O meu mano, o Filipe Albuquerque, vinha com certeza. Vinha o FF, que é o meu melhor amigo… Pessoas que estejam agora comigo no programa [All Together Now]… Nós temos um grupinho agora porreirinho… o Matay, o Nininho [Vaz Maia], o James, a Catarina Clau… a Liliana e a Andreia iam de certeza - das Nonstop, porque há uma vida que nos conhecemos… Era uma cambada jeitosa!


“A coisa que eu mais gosto é de receber gente na minha casa.”


Quem é uma referência na tua vida?

A nível profissional?


Na tua vida...

Na minha vida, a minha mãe.


Porquê?

Porque a minha mãe é a rainha disto tudo! A minha mãe é a pessoa mais forte que eu conheço. A minha mãe já passou coisas na vida que eu não desejo a ninguém… E ela está sempre com um sorriso. Acho que mesmo quando ela está triste ela não está triste. A minha mãe é muito positiva. E quer é pessoas felizes. E aceita tudo. Para ela, tudo é natural e tudo é normal. E... desde que estejamos felizes, verdadeiramente felizes…A vida dela não foi, de todo, fácil. E ela cá está, para as curvas, como nós costumamos dizer… Portanto, uma referência na minha vida é a minha mãe. Sem dúvida.


O que é que tens da tua mãe, “para as curvas”?

As curvas [risos]. Toda a gente diz que eu sou uma cópia da minha mãe. Eu acho que é o melhor elogio que as pessoas me podem dar: é dizerem-me que eu sou muito, muito parecida com a minha mãe. Sou muito parecida com a minha mãe fisicamente. Sou a única das filhas que, acho eu, se parece mesmo com ela. O resto acho que sai mais ao pai. Mas eu acho que tenho tudo da minha mãe, ou pelo menos tento ter. Se calhar sou tão parecida com ela porque ela é o meu maior exemplo… Tento segui-la ao máximo que eu posso. A honestidade e a frontalidade: isso é da minha mãe, de certeza.


Do quê, ou de quem, é que tens saudades?

[hesita] Do meu pai, que perdi no ano passado. Do meu irmão, da minha avó. Dos que já foram. Há sempre aquela coisa de saberes que não vais voltar a ver as pessoas. E eu sou muito ligada à minha família. Nós somos todos muito unidos. E portanto tenho saudades das pessoas que já não tenho cá. O meu papi, os meus avós, o meu irmão. [pausa, com comoção] Já foram alguns.


Vamos debruçar-nos sobre um poema de Reinaldo Ferreira que Amália cantou, que tu hoje cantas. O medo mora contigo?

Com quem é que o medo não mora? O medo mora comigo, mora comigo em relação a tanta coisa. O medo de falhar profissionalmente mora comigo. O medo de falhar aos meus - porque eu tenho a mania que resolvo os problemas de toda a gente e que sou a salvadora da pátria e que consigo sempre ajudar. E depois, quando não consigo - porque não conseguimos chegar a todo o lado... Tenho esse medo. Tenho medo de falhar para comigo, que falho muitas vezes, com muita coisa… Não sou uma pessoa naturalmente medrosa, mas tenho os meus medos.


Ainda usando as palavras de Reinaldo Ferreira: depois de passar a tal “ponte do fim”, como é que gostavas que se lembrassem da Vanessa Silva?

[hesitação e suspiro] Como eu sou: feliz. Sou sempre uma menina muito feliz. E louca. Que sou louca, sou. Falo muito alto e gesticulo muito. Estamos sempre a brincar que eu sou muito bairrista. Sou. Sou tudo. Tenho o coração ao pé da boca e digo as coisas com muita ênfase. Às vezes as pessoas levam isso a mal. É só uma frontalidade que vem aliada a uma honestidade... Se calhar é disto que eu gostava que as pessoas se lembrassem: feliz, frontal e honesta. E assim chegava… E cantadeira!


E como é que esperas um dia chegar a essa “ponte do fim”? O que queres levar contigo?

Memórias boas. Quero levar memórias boas, só. Eu também não tenho tendência a guardar coisas más. Portanto, quero levar aquilo para que eu vivo, que é o amor. Quero levar amor, já me chega.


entrevista


entrevista e produção Bernardo Peixoto

realização, câmaras e fotografia Luís Ribeiro da Silva e Sara Martins (Darkbox)

captação e gravação áudio Mapez

iluminação Bazar do Vídeo

grafismo Pedro Domingos

edição entrevista Eugénia Neto

edição teaser Gonçalo Feio

maquilhagem e cabelos Lilia Coscodan

assistência de produção António Gomes

agradecimentos MEO Arena, Moonway Films, Shine Iberia

entrevista realizada na MEO Arena a 04/03/2021